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Florianópolis, 21 de setembro de 2015

Quando se fala em doação de órgãos, Santa Catarina é destaque nacional. O Estado detém o primeiro lugar no ranking de doações no Brasil, com 30,6 doadores efetivos por milhão de população (pmp) no primeiro semestre deste ano. Assunto que é lembrado entre os dias 21 e 27 deste mês, durante a Semana de Esclarecimento e Incentivo à Doação de Órgãos e Tecidos. A data foi instituída na semana que antecede o Dia Nacional da Doação de Órgãos – 27 de setembro, data estabelecida pela Lei 11.584, de 2007.

De janeiro a junho de 2015, as equipes da SC Transplantes, vinculada à Secretaria de Estado da Saúde (SES), registraram 103 doações - 11 a mais do que no mesmo período do ano passado. Nos primeiros seis meses do ano foram realizados 628 transplantes de órgãos e tecidos no Estado. “O segundo semestre tende a ser ainda melhor que o primeiro. Esperamos um novo recorde até o final deste ano”, observa Joel de Andrade, coordenador estadual do serviço.

Beneficiado por um transplante de fígado em julho de 2015, Gilberto Tinn, 50 anos, recebeu o órgão apenas 22 dias depois de ter entrado na fila de espera. Hoje, um ano e sete meses após ser diagnosticado com um tumor, o torneiro mecânico confessa que teve medo de nunca mais passear com a filha Iasmim, de 5 anos.

“É uma batalha muito difícil. Não dá para imaginar minha alegria quando recebi a notícia que a equipe de transplantes estava me esperando”, relata Tinn. O morador de Santo Amaro da Imperatriz, assim como todos os transplantados, não conhece a família que autorizou a doação do fígado.  “Eu não sei quem eles são, mas o gesto dessa família salvou a minha vida, sem sombra de dúvida. Eu tenho muito que agradecer”, diz Tinn, após o sucesso da cirurgia.

Capacitação constante

A preparação contínua dos profissionais que atuam na captação de órgãos é fundamental para o sucesso dos transplantes e dos bons números de SC. De acordo com Joel de Andrade, o diferencial da SC Transplantes é as técnicas desenvolvidas para melhor acolher as famílias que perdem seus entes queridos. Atualmente, mais de 600 profissionais de urgência do Estado, entre médicos, enfermeiros, psicólogos e outros, são treinados para abordar familiares, comunicar a morte e sugerir a doação.

Empresário do município de Biguaçu, Jócio Nicodemos Martins foi abordado por uma dessas equipes depois de receber a notícia da morte cerebral de seu filho Tiago, de 20 anos. O jovem sofreu uma queda de skate e bateu a cabeça, em dezembro de 2012. A doação dos órgãos do estudante universitário salvou oito vidas. “A família nunca tinha falado a respeito. Mas depois de uma conversa como doutor Joel e sua equipe, resolvemos autorizar a doação”, relatou o pai. A decisão é dificultada pela perda de um ente querido, mas o empresário lembra que também deve ser difícil esperar por um transplante. “Alguém parou de sofrer e hoje está mais feliz por causa da doações dos órgãos do meu filho”, observa Martins.

Assista ao vídeo e conheça a história do Gilberto e de como sua vida mudou após receber um transplante de fígado.

Quem pode doar

Todas as pessoas podem doar órgãos e tecidos. Não é necessário deixar nada por escrito, basta comunicar sua família sobre o desejo da doação. A doação de órgãos só acontece após autorização familiar.

SC Transplantes

A estrutura da SC Transplantes foi elaborada com base no modelo de doação utilizado na Espanha. Além da coordenadoria, existem grupos nas unidades hospitalares. “Esses grupos são compostos por profissionais do próprio hospital que trabalham na identificação de potenciais doadores, no apoio do diagnóstico de morte encefálica e nas entrevistas com os familiares”, explica Andrade.

Como é o processo de doação de órgãos

1º.   Detecção do potencial doador consistente com morte encefálica ou cardíaca;

2º.   Manutenção clínica do potencial doador (é administrado soro e remédios para os órgãos continuarem funcionando e terem condições de serem transplantados);

3º.   É feita a comunicação de morte aos familiares;

4º.   Após duas horas é realizada a entrevista com as famílias do paciente que não tem contraindicação;

5º.   Com o consentimento da família são iniciados os exames e o planejamento de remoção dos órgãos;

6º.   Após a retirada dos órgãos inicia a logística de transporte

Para Joel de Andrade, coordenador da SC Transplantes, a logística de transporte após a retirada dos órgãos é uma das etapas mais importantes, pois quanto mais jovens os doadores, mais complexa é a estrutura devido ao potencial de utilização dos órgãos. “Para isso temos à disposição aeronaves da Polícia Militar e Polícia Civil, do Corpo de Bombeiros, Samu, táxi aéreo e voos comerciais, de acordo com a disponibilidade no momento”, destaca o médico. 

No caso de mais de um órgão a ser doado, a logística é ainda maior, pois, na maioria dos casos, os receptores residem fora de Santa Catarina. Nessas situações, a responsabilidade da logística passa a ser do Estado onde reside o paciente que receberá o órgão.

Todo o processo movimenta uma equipe composta por 45 pessoas e dura, em média, entre oito e 12 horas, com exceção de órgãos como o coração e o pulmão, que precisam ser transplantados rapidamente, não podendo ultrapassar o tempo de quatro horas.