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Durante uma viagem a trabalho no Japão, o fotógrafo Antonio Carlos Mafalda não se sentiu bem. Em um compromisso na embaixada brasileira, onde cobria uma missão do governo do Estado de Santa Catarina, pediu apenas um chá. Não era nada demais, pensou, e ele não queria incomodar. Dois dias depois, em Florianópolis, acordou com um forte sangramento e foi levado às pressas para o hospital, onde passou um dia inteiro fazendo exames, mas não surgiu um diagnóstico. Viajou para São Paulo, onde buscou auxílio no Hospital Israelita Albert Einstein. Mais quatro dias de testes e veio a notícia. Com três tumores no fígado, ele tinha apenas oito meses de vida. Isso foi em 2013. Na noite desta quinta-feira, 28, aos 71 anos, Mafalda demonstra ter a mesma energia que tinha aos 30 anos, quando, sem falar uma palavra em italiano, conseguiu entrar no local onde estava sendo julgado Renato Curcio, membro das Brigadas Vermelhas, para fazer a única foto do guerrilheiro captada durante o julgamento na cidade de Turim.

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A saga de Mafalda é um dos muitos exemplos da importância da SC Transplantes, a unidade vinculada à Superintendência de Serviços Especializados e Regulação da Secretaria de Estado da Saúde (SUR/SES/SC) que, por 12 anos, é recordista no Brasil na incomparável arte de prolongar com qualidade e viabilidade a vida de pessoas condenadas pela medicina. O trabalho de excelência da instituição foi oficialmente reconhecido em uma sessão especial da Assembleia Legislativa.

Em São Paulo, o veterano fotógrafo obteve um diagnóstico, mas a solução para o problema estava, como lhe disseram “no quintal de casa”. Sem vagas no Albert Einstein e com a certeza de que uma mera cirurgia era hipótese descartada, apenas um transplante no Hospital Universitário (HU) da Universidade Federal de Santa Catarina garantiria alguma chance de driblar a morte. “Ao falar do HU me emociono. É a minha segunda casa. E em hospital é difícil, é muita coisa, muita pressão psicológica. Mas o HU é muito humano. Lá tratam bem todo mundo”, comenta.

Mafalda começou com 70 pessoas na sua frente na fila de espera pelo transplante. A primeira chance não se consolidou, pois não havia plaquetas suficientes para a operação. Dez dias depois, veio a oportunidade adequada. Transplante feito, após cinco dias, seu organismo rejeitou o órgão. Apesar da dúvida se valeria a pena uma cirurgia devido ao estado de saúde do paciente e dos riscos que isso gerava, a decisão firme dos médicos garantiu o desfecho esperado. “Tive a sorte que encontraram uma artéria entupida. Cortaram e colaram. Foi longa a recuperação, mas fui abençoado”, lembra o novo Mafalda.

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Do Japão ao completo restabelecimento, até a retomada de uma vida normal, passaram-se dois anos. Para ele e todos que estão diretamente conectados à SC Transplantes há uma certeza comum. É a importância de que cada cidadão, e suas famílias, aceitem ser doadores. O empresário Jócio Martins, que na sessão especial falou em nome de familiares de doadores, citou que não conhecia a unidade até seu filho, Tiago, perder a vida aos 20 anos, em 2012. “A importância é muito grande do trabalho [feito pela SC Transplantes]. As pessoas precisam saber, ter conhecimento da necessidade da doação de órgãos. Muitos aguardam uma oportunidade e, no momento que chega um órgão, o sofrimento acaba. É necessário divulgar ao máximo para que aumente cada vez mais o número de doadores”, afirma.

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O coordenador estadual do SC Transplantes, Joel de Andrade, concorda que não há dúvida sobre o impacto causado pelas campanhas de conscientização. Mas, avalia, o diferencial do sistema catarinense é o modelo de gestão, baseado de uma maneira muito forte na educação dos profissionais de saúde. “Essa é a chave do sucesso. As doações ocorrem à medida que estes profissionais podem identificar a morte encefálica, fazer o diagnóstico da forma correta e, principalmente, que saibam acolher as famílias e tratá-las com dignidade, com respeito, com carinho. Disso, derivam as doações. É o modelo que adotamos há 15 anos aqui em Santa Catarina e, por 12 anos, fomos o melhor do Brasil”, argumenta.

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Segundo o secretário de Estado da Saúde, Helton de Souza Zeferino, a SES e o estado de Santa Catarina tem muito a comemorar com esses 20 anos da SC Transplantes. “Uma história belíssima, de excelência, construída a muitas mãos, que nos possibilita estar posicionado como o estado que mais realiza transplantes no ano de 2019 e um dos estados referência a nível mundial no que se refere a transplantes. Parabéns a toda a equipe, profissionais médicos, da enfermagem, pessoas da comunidade que são parceiras, colaboradores desse processo grandioso que é o sistema de captação e de transplantes. Agradecer aos parceiros das forças de segurança, do transporte aéreo, do transporte rodoviário, ao gabinete do governo do estado, que este ano disponibilizou a própria aeronave para uso do sistema de transplante catarinense. Além disso, nada poderia ser realizada sem a participação e sensibilidade da população. Estamos em festa. Desejamos que em breve possamos atender ainda mais pessoas que esperam ansiosamente por uma notícia positiva para que seu transplante possa ser realizado”, completa o secretário.

De volta ao trabalho e à vida de amor com sua família e seus muitos amigos, Mafalda não tem dúvidas. Um transplante só é sucesso se o paciente também contribuir. “Esse é o apelo que eu faço. Além da população, das famílias se conscientizarem sobre a necessidade de doar os órgãos, a pessoa também tem que colaborar. Fazer o que os médicos pedem. Não transgredir as regras, não ter mal-estar, não ser um burocrata de si, dizendo que está doente. Transplante não é doença! É um momento que tu estás passando”, argumenta. Para ele, a celebração do Parlamento catarinense é um ato político. “E a SC Transplantes só vai ser grande, como é, se politicamente for ajudada. A população tem que saber o valor disso, esse apoio da Assembleia Legislativa, dos representantes do povo, é muito importante. Isso não tem ideologia, não tem religião. É doação de órgãos”, conclui.

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Desde a criação da SC Transplantes, mais de 15 mil pessoas receberam órgãos e tecidos, aumentando suas vidas. Nos primeiros dez meses de 2019 foram registradas 262 doações de múltiplos órgãos, sendo que em setembro foi registrado o melhor desempenho em 20 anos de história da unidade, com 43 doações efetivadas. Hoje, a fila de espera por um órgão está em quase 600 pacientes.

Com informações e fotos (Bruno Collaço) da Agência AL